27 de julho de 2016

Procurando por elas


Pediram-me palavras
Poesia que saía de mim ao encontro do outro
Que cortava meus pedaços
Até o sorriso dele

Minhas letras estão aqui
Alternam ordem e desordem
Procuram por palavra, união

A busca pelo próximo estimula
Dedos frenéticos
Nostálgicos
No teclado da vida

A inspiração segue a linha da ponte
Luzes e movimentos que não param
A tela mostra minha poesia
Ou o que consegui juntar de palavras

O sofrimento era meu guia
Cultivava cada gota dele
Criava, aumentava, estimulava
E usava como tinta da minha caneta

Hoje eu quero sorrir
Mas ainda não conheci as letras
Vou borrando com o que há
Enquanto tenho uma janela com vida lá fora                                      

29 de fevereiro de 2016

I've been waiting for you

Olhos cor cinza e coração de pedra
Alma mole, sem Maria
Eu digo o que sinto
E você não sente um sussurro

Faço uma prece por você
Em nome de seu pai, sua mãe e no meu
Oro pelo bem que vive dentro
Que possa viver fora
Que venha viver em mim

Lembro de quando você ainda estava
Sempre perto
Inconstante
Imperfeito
Incompleto
Meu
Metade meu
Sempre seu

E hoje você me diz ser um problema
Meu caso perdido perfeito
Os meus olhos que ninguém quer ver
Os seus que só eu vejo

Então, não me diga que não há
Que tudo é parte da sua viagem espacial
A verdade é que não está sozinho
O líquido que mata uma vez
Quando retorna
É veneno de dois

Não há tempo suficiente para resistir
Não sobra tempo para desistir
Eu permaneço ereta por amor
E me desdobro para seguir pelo chão

A paciência que preciso escorre
Perco litros por dia
O que me mantém de pé
É a força da força que me vê cair

E eu te vejo
Ao longe
E a saudade faz tudo voltar
“Aquela metade ainda é minha”
Grito
Até você virar a próxima esquina
Sina minha



12 de setembro de 2015

Tempo verbal


Ando à frente
Para frente
Paro aqui
Olho para trás
Tropeço nas lembranças
Machuco os joelhos na saudade
Seco as lágrimas com poeira
E respiro o ar duro que você deixou
O passado está tão perto
Encosta, aperta, sufoca
Faz-se presente
Não deixa de ser ontem
As lembranças são vivas
Fazem da minha alma seu alimento
Adoeço da falta
A cada pedaço meu que sai
E não volta
Quero hoje
Quero o hoje
Com você perto ou não
Mas longe do tempo

19 de julho de 2015

Parto

E eu reviro-me à procura de um novo eixo. Algo para seguir sem mais medos de fraquejar, com um caminho novo para novos tropeços. É que eu já me acostumei à sensação de vulnerabilidade a mim mesma, mas as dores de ser sempre menos do que posso fazem de mim alguém que não arrisca ser mais do que pode. A linha tênue e resistente que separa a loucura das ações deixa agora a sensação de tédio da inconstância permanente.
O chão mais sereno carrega a potência de uma avalanche. Um leve tremor abala as estruturas que sofrem com as dores do crescimento. Seguro o choro como uma criança que quer se esconder da fragilidade.
Que quer ser mais.
Maior.
Grande.
E o tamanho pequeno do equilíbrio acha que assim pode ir mais longe.
Mas pode o quê?
Para quem?
À volta, tudo fica reduzido ao mesmo de cada um, voltado a si próprio. E eu aqui, buscando o olhar do outro vendo o que almejo ver em mim. O corpo já está cansado e tenta encontrar posição mais confortável à estranheza de existir.

A consciência de sentir a vida, e não apenas vivê-la, cansa, descansa, excita, goza e renova.

Enquanto cada um encontra sua forma singular e semelhante de estar aqui, eu me reviro novamente para buscar conforto. Alguém diz que a vida é curta e eu peço uma dose de resiliência e prazer para compensar a deformação que sofre o corpo em busca de recuperação.
Escapar da multidão parece uma boa ideia para não sucumbir à tragédia ao lado.
Levanto melhor.
A luz deixa de queimar, mas ainda me surpreendo impedindo-a com as mãos.
As contrações estão mais fortes e brinco com o cordão que sai de mim, mas a ninguém está ligado.
Enquanto faço força para expulsar-me de mim, despeço-me da felicidade que um dia causei a outrem.
E das dores também.
Sinto o corpo dilatar. Centímetros que separam-me de onde tudo começou e onde terminará.
Não quero mais meu útero envolvendo meu corpo.
Fora.
Afora.
Apago a luz e durmo.
Quando acordar, estará tudo igual
Isso basta para ser diferente.

11 de dezembro de 2012

Blue



Converto horas em dias
Dias em anos
Distância em amor
Tempo em saudade

O corpo ausente mostra-se presente
Toque ao longe
Sensação de quase perto
Quase que não basta

A voz cala-se
Pernas não caminham
Os olhos procuram pelo algo
O corpo vivendo a memória

Diga-me quando voltas
Para os braços abrirem 
À procura do que falta
À espera do que completa

4 de setembro de 2012

Doses de mim


Eu não vim aqui para ver o céu cair por terra
Não estou aqui para duvidar do que não vi
E não vou ficar se não valer a pena
Não por mim

Não quero a imperfeição
Mas suporto os erros sãos
Faço dos tropeços degraus
E sigo nas linhas retas
Fazendo dos caminhos a minha direção

Você me diz que é fácil
Boas escolhas e nada mais
Eu te digo que é preciso respeito
O funcionamento com base na sublimação

O circunstancial tem seu sentido
E seu contexto faz significado
Cada momento pode ser único
Com a maré na corrente certa
Levando a vida na direção do meu fado

31 de março de 2012

Ponto comum de paralelas

O poeta diz escrever o que pensa, mas escreve para sentir de outra forma o que sentia até então. Desvenda o mundo imaginário dos infinitivos para transformá-los em palavras. Escreve um sim e o combina com um não, faz os opostos aproximarem-se e produzirem rima. Dê à mão do poeta uma caneta e por baixo dela um papel. Verá surgir dali a mais bela das dores, recém-descoberta ou além vida de vida. O poeta transpira vivências atemporais. Nada se perde na mente de alguém que pensa em versos. Não há memória falha para quem acumula inspirações e não há poucas palavras para descrevê-las. O poeta não morre por dor, ele apenas sofre por ela. O corte passa a linhas e a lágrima escorre entre vírgulas, até secar no último verso. Tudo o que brota no processo de cessar o anseio pela visibilidade da palavra gera um novo significado à já pré-concebida definição. O poeta tem o poder de escrever sobre a mesma vivência de variadas formas, com ou sem rima. Sua mente emociona-se ou repudia o sentido, faz dele apenas mais uma forma de buscar tesão para motivar sua escrita. O poeta não se cansa. Ele é capaz de reviver, de manter, de conservar. Seja o que for. Para o sempre necessário. Se deseja ferir um poeta, corte suas mãos. Se quiser mata-lo, leve seu devaneio de versos soltos, sobrevivente da arte de ser variante de si.

21 de março de 2012

Las escaleras de mi Argentina

A tristeza dos olhos à frente faz chorar o olhar meu. Miro longe, acerto o que não vejo e tateio a superfície que me suporta. A porta quase fechada deixa uma brecha na qual tento encontrar os significados perdidos por você. Procuro-os na penumbra mantida pela luz tímida que emana do que não temos coragem de encarar. Seguramo-nos um no outro para fugir das lembranças do escuro, aquele que prende os pés nos sonhos ruins e impede o acordar. Você me diz que vai ficar tudo bem, enquanto seus olhos contorçam-se para caber dentro do corpo e impedir que as lágrimas caiam ao chão. E secam pela necessidade de expelir a dor. As rachaduras criam uma beleza estranha aos olhos de fora. O sofrimento tem uma beleza artificial de felicidade, necessária para continuar não vendo o que já é insuportável ao restante do corpo. E da mente. E da alma. Eu ofereço minha mão e você a coloca longe da pele. Sentir o toque pode fazer as cicatrizes da pele voltarem a sangrar nos dois. Assim é confortável, amenização sadomasoquista da memória. Firmo a outra mão sobre sua nuca e fixo meu olhar no seco, no belo. Tento tirar dali a razão encontrada ali quando olhei aquele lugar pela primeira vez. Ela continua ali. Eu sei que está. Coberta de um passado que não volta e um presente que não se vê. Mas está. E eu a quero de volta. Sentada ao meu lado nos degraus da nossa escada. Segurando vontades. Segurando o que cabe. Sus ojos miran para el espacio donde vive el pedazo de mi alma que no puedo ver. Conozca lo que no puedo tocar y dígame con su piel.

10 de março de 2012

Expulsão repentina

Eu não quero ser aquela que diz adeus, que rompe portas e sai à procura de alegria. Meus dias de glória enfraqueceram-se, e o desejo de abandonar tudo para trás deixa um borrão naquilo que foi bom. Dias viram meses que viram anos que viram o tempo que não aguento mais. Eu escrevia porque gostava e hoje o faço porque preciso. Olho nos seus olhos e não vejo nada maior do que eu.  Sua luz não atravessa a minha e não me deixa pensando no que eu poderia ter sido. Enche-me de orgulho perceber que, no ápice do seu ego ereto, você não consegue ver o que eu vejo além. Admirar-se demais é tão emburrecedor quanto achar-se incapaz, mas com o agravante de levar a crença de pessoas cegas pelo falso encanto do entrelaçar dos seus dedos pelo cabelo. E você me atinge. Com suas farpas de capacidade, deixa uma latejando no meu dedo. Mas não pense ser isso suficiente para derrubar. Não a mim, pois eu rio enquanto observo outros dois dedos expelindo-a. Meu sangue é forte, meu corpo é resistente, minha alma é calejada. Enquanto você ergue-se, eu preparo o meu sorriso para compartilhar com quem quiser ver a sua queda. Eu estarei aqui, longe de você e perto de mim. Sua pedra eu chuto ao longe. Guardarei apenas aquilo que não quero ser dormindo ao lado do que sei que posso ser. E essa paralelas não se cruzam.

11 de fevereiro de 2012

Ser ou não ser. Não há questão.

 
Não duvide de mim e eu me faço capaz. Duvide de mim e eu te provo que sou. Minha capacidade de ser vem atrelada ao que penso ser. E isso muda o tempo todo. Acordo bela e adormeço fera. Embalo-me nos sonhos perfeitos e acordo na realidade extenuante. Faço tudo o que posso, ou quase nada, no embalo perfeito da minha falta de ginga. O meu caminhar é suntuoso, com ritmo e potência ensaiados, síncronos. Passo força e desenvolvo a confiança. Piso firme, sem maltratar o chão e valorando cada passo. E, a cada um, eu digo em voz alta e para mim que o próximo está por vir. Descansar não é para os fracos, é destinado aos humildes que têm perseverança para continuar sempre. Não parar nunca adoece o corpo e nos faz incapazes de perceber o que chega. Inteligência vem do corpo e o corpo é sábio. Não duvide do que ele pode fazer ou duvidará da razão de ser. Existir é provar a cada minuto que o merecimento por viver é esforço. Requer carinho, atenção e respeito. Tesão pela vida é sentir e fazer do tesão algo real é ação. Eu ajo. Não duvide de mim.